“LISBELA” LIBERTADA

Quer um ótimo programa para este fim de semana? Vá ver “Lisbela e o Prisioneiro – o Musical” lá no Teatro Net, em Copacabana.

Bom por demais. Tem furdunço, lesco lesco, moça no caritó, forró, rock, acrobacias e uma história de amor arretada. Tudo isso e muito mais no espetáculo Lisbela e o Prisioneiro – O Musical, em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana. O texto do escritor pernambucano Osman Lins, escrito há 51 anos, estava lá, mas com uma roupagem diferente daquelas que foram vistas no especial da Globo, em 1993, e no cinema, em 2003. A versão de Francisca Braga trouxe um mulherengo Leléu (Luiz Araújo) e uma doce  Lisbela (Ligia Paula Machado) para o picadeiro do circo Alegria, e os jovens atores brilharam. O elenco na maior sincronia e (ufa!) um trabalho e de corpo, um preparo físico invejável, já que havia “função” circense o tempo todo dentro da peça.  Um casamento feliz de luz, cenário, figurinos, músicas e interpretações, claro. Uma verdadeira viagem para quem gosta de dar asas à imaginação.

 

 texto: Simone Magalhães

fotos: fco. Patrício

 Como num filme, o musical começou com os créditos no telão. E, ao fundo, a música de Fernando Mendes, Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, eternizada na voz de Caetano Veloso no filme Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, há 12 anos. E logo que a cortina foi aberta vimos alguns elementos circenses, mas não imaginamos que, em seguida, a “função” apresentaria uma Lisbela dançando balé e até rock, usando patins – num misto de roller dance, que marcou a geração dos anos 1980, e rock´n roll da década de 50 -, fazendo acrobacias no trapézio, no tecido, e cantando lindamente. Aliás, dois pontos altos do espetáculo são a seleção musical e o potencial vocal dos atores. A cada canção interpretada, a platéia aplaudia entusiasmadíssima.

E teve de tudo um pouco: Sonhos de Um Palhaço, de Antônio Marcos; Purpurina, de Jerônimo Jardim; Foi Deus Quem Fez Você, de Luiz Ramalho; Estrada do Sertão, de João Pernambuco e Hermínio Bello de Carvallho; Rosa, de Pixinguinha; Conversa de Botequim, de Noel Rosa; e fechando o espetáculo, depois dos agradecimentos dos atores, um final apoteótico com Somos Todos Iguais Nesta Noite, de Ivan Lins.

E no picadeiro do circo Alegria, oito atores mostraram não apenas suas qualidades na interpretação de texto, mas como artistas, no sentido mais amplo. Havia clowns, malabaristas, acrobatas de solo, de corda… Jonatan Motta, o Cabo Citonho, por exemplo, podia ser visto tocando violino, junto aos oito músicos, no fundo do palco. Eles também tinham “papel” no drama musicado: “pertencer” à guarda municipal.

 

 

Para quem não sabe ou não se lembra, a história de Lisbela e Leléu, se passa em Vitória de Santo Antão, terra natal de Osman Lins. O rapaz é um artista mambembe, mulherengo, perseguido pelo matador Frederico Evandro (Fernando Prata) por ter se deitado com Inaura (Millene Ramalho), esposa do fora da lei. Já a donzela é uma doce sonhadora, noiva do playboy Douglas (Beto Marden), que passou um tempo no Rio de Janeiro e voltou pra cidade cheio de marra. O encontro entre os protagonistas é amor à primeira olhadela.

Mas o pai da moça, o tenente Guedes (Nill de Pádua) é um homem rígido, não admite aproximações da filha com o bonitão circense. Leléu faz tudo para Lisbela ficar com ele. Sabendo que ela adora os galãs de Hollywood, e tentando ganhar um beijo, o bonitão apela: “Bom é ator brasileiro! Se a mocinha for porreta, o beijo já vem traduzido!”. E é aí que Ligia canta lindamente Purpurina, famosa na voz Lucinha Lins: “Se você pensa que vai me seduzir, se você pensa que vai me arrepiar… Pode ser, mas eu sou feito purpurina: se uma luz não ilumina, não há jeito de brilhar”.

Só que Douglas – personagem que poderia ser um menos caricatural e ambíguo – sempre aparece para estragar o jogo de sedução do casal. E quem ajuda Leléu, agora um homem apaixonado por uma mulher só, é Cabo Citonho. Ele também tem suas agruras amorosas: é casado e amante da ex-mulher de um amigo. A moça é Francisquinha, numa bela interpretação de Milene Vianna. Um dos momentos emocionantes é quando o policial e a amada cantam Estrada do Sertão, música linda gravada por Pena Branca e Xavantinho. “Coisa que não arrenego, nem tão pouco desapego, ter gostado de você. Foi gostar desenchavido, encruado e recolhido, de ninguém se aperceber…”.

 

 

Entre números de circo e um repertório extramente bem escolhido, claro que surge o drama em sua essência mais profunda: o lidar com a morte. Frederico Evandro corre a cidade em busca de vingança, encontra Leléu. Só que para livrar seu amor de uma bala do assassino, Lisbela manda o pai prendê-lo. E quando, já vestida de noiva, prestes a casar-se com Douglas, a moça vai visitar seu amor na cadeia, surge um dueto maravilhoso com Você  Não Me Ensinou a Te Esquecer. “Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer, e te querendo eu vou tentando te encontrar…”. Mas o Cabo ajuda Leléu a fugir, enquanto Frederico revê Inaura. Ele diz que vai matá-la. Como perdeu o seu grande amor para Lisbela, a moça manda o ex-marido apertar o gatilho. Percebendo a situação, ele recua: “Eu vou lhe deixar sozinha, sem ele, no inferno em vida”. 

É claro que a protagonista desiste do casamento e quando volta para os braços de Leléu, ele garante: “Esse é só o primeiro episódio de um drama de amor e aventura. Lisbela e o Prisioneiro… esse seriado vai durar pra sempre”. E canta o Céu de Santo Amaro, de Caetano Veloso. “Na noite do sertão meu coração só quer bater por ti. Eu me coloco em tuas mãos para sentir todo o carinho que sonhei. Nós somos rainha e rei…”. Mas o assassino e os outros personagens voltam à cena. E naquele mata-não-mata, um tiro derruba o vilão. Como Lisbela tem um revólver nas mãos todos acham que… Nada disso: foi Inaura, que, a partir de então, resolve seguir a sina do ex-marido.

Com o consentimento do pai, a bela se une ao dono do circo Alegria, que agora, livre dos percalços, diz  que “o espetáculo da vida não para nunca”. Cai uma chuva colorida de papel picado, e vem a despedida com a música de Ivan Lins. “Pede a banda pra tocar um dobrado, olha nós outra vez no picadeiro…”. Casa lotada, público aplaudindo de pé, e saída com o coração leve por mais uma história de amor com final feliz. 

 

 

 

 

 

Fontehttp://asdigital.tv.br/portal/?p=14064

"A história do teatro brasileiro é povoada de atrizes empreendedoras, que, em vez de ficar em casa à espera de um convite, resolveram arregaçar as mangas e produzir seus próprios espetáculos".

Miguel Arcanjo Prado

Siga-nos